Bad Thoughtz

Pensamentos sobre sexualidade, consumo de drogas e produção de desejo.

  • Na sexta do dia 14 de novembro, fui ao teatro campo alegre celebrar a obra de arte: As mulheres que celebram as tesmoforia, de criação e texto da artista portuguesa: Odete. A obra retrata um grupo de mulheres trans que buscam vingança e desejam matar o dramaturgo hétero e cis Aristofanes. O que seria a vingança se não um desejo, portanto questiono o que é o desejo?

    Um corpo desejante, segundo Deleuze e Guattari, é aquele que se liga ao mundo em um processo contínuo e produtivo de manifestação de desejo, tornando-se assim: uma máquina desejante. Neste sentido, o desejo não é apenas uma força passiva, mas sim um motor ativo que move o corpo em direção ao mundo, estabelecendo conexões e interações com tudo ao seu redor. O desejo, então, é o combustível, a energia, que faz esta máquina (corpo) funcionar, impulsionando ações, pensamentos e criações. Este dinamismo permite que o corpo se transforme constantemente, ajustando-se às novas realidades e experiências, e interagindo com diferentes contextos sociais e culturais. Assim, o corpo desejante emerge como um agente criativo, capaz de transformar tanto a si mesmo quanto o ambiente, em um processo interminável de produção e recriação de sentido.

    Mas dentro de um mundo cada vez mais desigual, onde visualizamos um retrocesso dos direitos humanos alcançados, dentro de uma cultura cada vez mais pornográfica impondo assim um desrespeito a tradição1 , quem pode ou não desejar? E se desejamos, será nós que temos autonomia na criação desses desejos ou apenas somos meras máquinas condicionadas a reproduzir aquilo que achamos que queremos ? De onde vem o nosso combustivel para dar forma aos nossos desejos ?

    Atualmente o mundo que me rodeia é um mundo livre, onde tudo pode acontecer, já que não há legislação e nem regulamentação. Dentro desse tipo de ambiente, extremamente selvagem, coisas inéditas ocorrem, tanto coisas maravilhosas como coisas horrorosas, é preciso ser adulto para caminhar em um espaço como este. E são com mulheres velhas que aprendo tudo.

    No serviço sexual produzimos constatemente desejos, vendemos desejo. Neste espaço existe um imperativo a infantilização de mulheres levando a uma afirmação da cultura da pedofilia, enquanto mais sua imagem envelhece menos valor a mulher possui no serviço sexual. É como se uma mulher velha não fizesse parte do catalago de desejos pré fabricados para mentes adormecidas.

    Porém é no ultrapassar da idade que existe a sabedoria, são as mulheres velhas que contém todo o segredo da vida, do sexo e do mundo. Putas velhas são as que sabem de tudo.

    A pornografia não é apenas o material sexual, mas sim a forma como você consome o desejo e o imperativo da cultura atual é que todos nós somos pornográficos, segundo Byung Chul Han. Não existe erotismo ou sedução no mundo atual, vivemos em um tempo muito acelerado para deleitar a experiência de estar vivo. Ou seja, consumimos um monte de desejos que achamos que queremos, mas nada aquilo é o que realmente queremos, é como se fossemos buracos negros, possuímos uma fome destrutivas comemos tudo que vemos pela frente, mas nada daquilo mata realmente o nosso desejo, porque aquilo que vendem é fruto concreto da imagem do mundo, comemos destruição porque o mundo está destruído, colocamos uma embalagem bonita em mentiras, assim vendemos e compramos aquilo que é precário para sustentar desejos mórbidos de um mundo cada vez mais mórbido. Vivemos exatamente em um mundo de simulações e simulacros como nós lembra o nosso querido Baudrillard e as nossas queridas putas velhas.

    Quando iniciei meu interesse no trabalho sexual, a minha experiência foi em sites de sexo ao vivo, lembro da primeira janela que entrei, era um casal idoso em um quarto normal, nada de muito especial a nível cinematográfico e de direção de arte, mas eles realizavam uma performance impecável, o número de visualização era gigantesco muito maior do que qualquer produtor de conteúdo com cenários estéticos. Quando eu olhei para aquilo, fiquei impressionada, na minha cabeça juvenil rodeada de preconceito, me questionava: como um casal de velhos é sensual? Como esses corpos produzem desejo e porque compram estes corpos velhos ? E hoje em dia tudo fica claro, é sensual porque eles sabem de tudo, a verdade mora dentro do corpo deles, portanto não precisam de embalagem para esconder nada, porque aquilo é real e é produção de desejo em vida.

    Velhos sabem de tudo e é por isso que paramos para assistir, erotismo é saber, é conhecer e um corpo jovem não é erótico, porque ele ainda não sabe. Portanto para um trabalho sexual, quem sabe são putas velhas, putas novas não sabem de nada.

    E é por conta deste fato que um pedófilo é o pior cliente do mundo, o pedófilo é filho puro do capitalismo selvagem. Ele não quer sabedoria, ele quer algo fácil, mórbido e mentiroso para aliviar todos os seus sintomas negativos que o capitalismo entala no corpo dele. Um pedófilo não encara uma puta velha, porque ela sabe de tudo e ele tem medo de quem sabe de tudo. Porque ele não quer saber, ele escolhe permanecer nas mentiras do mundo.

    Portanto, putas velhas serão sempre as mais temidas, porque já viram de tudo e, ainda assim, não têm medo do trabalho. E é justamente essa experiência acumulada que revela o quão difícil é caminhar por terras selvagens. É a partir dessa maturidade que levanto também uma crítica ao trabalho de produção de conteúdo, outro território sem lei e sem regulação, onde testemunhamos tanto o extraordinário quanto o desumano, permanecendo em silêncio diante do espetáculo da destruição. Inclusive porque este instrumento que carregamos nas mãos (o telemóvel ), paradoxalmente, nos imobiliza: por que ele bloqueia o desejo de se manifestar no corpo?

    Hoje, crianças tornam-se milionárias nas redes sociais; pais colocam seus filhos diante de câmeras sem considerar os danos e a precariedade desse trabalho. Num mundo sem leis, quem realmente sabe como sobreviver são as putas velhas , porque já passaram por tudo isso e continuam, firmes, fazendo o que fazem de melhor. Putas velhas guardam todos os segredos do mundo e, por isso, abaixamos nossas cabeças diante delas, até que, um dia, nos tornemos uma delas.

    1. Quando falo em tradição, falo sobre a história daqueles que vieram antes de nós. Todos os grupos contém consigo histórias e ter conhecimento da sua história, por mais dolorosa que seja, é poder. ↩︎